Declaração de artista
Declaração de artista · por Marcela Neves · 2026
Redação de Uiler Costa-Santos Studio a partir dos textos e do trabalho de ateliê da artista
Trabalho a partir da origem. Das raízes que vêm de antes de mim, das histórias que vivi e das culturas que encontrei em viagem — e da origem da vida, esse enigma que a arte, como a natureza, não para de reencenar.
Comecei pela fotografia e é por ela que ainda chego às coisas: a gota suspensa numa teia, a pedra rachada, o reflexo que desmancha uma árvore na água, o cheiro de terra depois da chuva. Mas uma imagem nunca me basta. Por isso costuro fotografias com linha, recorto fungos em papel, modelo pequenas formas de barro, levo a imagem de volta à química da cianotipia e das impressões em tons de terra, e me coloco diante da câmera — atrás de um copo d'água que deforma o rosto, com os cabelos virando raiz.
Não penso nesses meios como linguagens separadas. São estados da mesma matéria. O que me interessa é o momento em que ela está entre uma forma e outra: transformada ou transformando-se. O feminino, a finitude, o caos que dá lugar à origem, a dualidade de ser — tudo isso passa pelo corpo antes de virar obra.
Caminho entre ciência, física, espiritualidade e emoção. Acredito que a natureza, os sentidos, as cores, os sons e as formas são vínculos invisíveis que nos unem a um único universo, e que cada ser e cada gesto reverberam nele. Meu trabalho é tentar tornar visível essa dança constante entre fragilidade e força, caos e ordem — e lembrar que as conexões que importam ainda são as que não passam pela tela.