Marcela Neves

Elementos em transformação

Ensaio curatorial · por Uiler Costa-Santos Studio · 2026

Há uma frase da artista que organiza tudo o que se vê aqui: “Vejo a arte na natureza, nos ângulos captados de elementos em transformação: transformados ou transformando-se.” É uma declaração de método, não de gosto. Ela não diz que fotografa a natureza; diz que fotografa o intervalo.

As séries reunidas neste site são estados de uma mesma investigação. Em Des Cobertas, a areia dos Lençóis Maranhenses muda de forma a cada vento, e a linha entre duna e água é refeita todo dia — fotografar ali é chegar no instante entre uma coisa e outra. Em Texturas, o enquadramento fecha até a escala desaparecer: sem horizonte, a pedra pode ser vista de satélite ou lâmina de microscópio, e essa indecisão é o assunto. Em Sombra e Luz, o que junta a floresta amazônica, o peixe no mercado e a parede riscada por fios elétricos não é o lugar, é o agente — a luz que chega, atrasa ou se recusa.

Em Humanos, três imagens apenas, a transformação ganha rosto. A decisão de manter a série curta é significativa: contra o impulso de acumular, a artista preserva o que resistiu, e coloca ao lado de dois retratos indígenas uma teia de aranha sobre pedra. A aproximação é deliberada — também ali há alguém que constrói, e a estrutura só aparece quando a luz bate de lado.

Em Céu e Água, ela pega o motivo mais gasto da fotografia, o pôr do sol, e o salva pela insistência: não busca o espetáculo, busca a linha em que as duas metades deixam de ser distinguíveis. Espelhar é a chave — uma casa ribeirinha e seu reflexo, montados de modo que não se sabe qual metade está de pé.

Em 2024, com Na Trama da Percepção, a fotografia sai do plano. As impressões deixam de ser imagens isoladas e passam a ser peças costuradas com linha: o que liga o conjunto não é o assunto, é o fio. E em 2026, com EX-SISTERE, a câmera se volta para dentro. Depois de quase uma década fotografando a matéria em transformação, a artista submete o próprio corpo ao mesmo tratamento — a exposição longa que dissolve o contorno e multiplica a figura. É a série mais direta e a mais arriscada. Aqui o elemento em transformação é ela.

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