Diante do Sutil
Texto curatorial · por Marcela Bonfim · 2023
Rooftopemcasa, São Paulo
Socotra é uma linha estreita de acesso ao passado. Uma experiência de vida, com infinitas formas de perceber o mundo acontecer. Um túnel direto do tempo que nos liga ao que já foi, ao que ainda é, e ao que virá ser. Diante do sutil, Socotra parece emergir da firmeza de uma rocha. É o impacto que se tem ao deparar-se com esta ilha, extraindo dos nossos olhos uma certa espera, um silêncio, um mistério a reconhecer. Do deserto à floresta, onde tudo começa e se finda, como a luz ardente a condensar noites frias. Contextos de um mesmo “Oriente”, nos levando do trabalho incessante, a cavidade dos sorrisos a estampar o dia-a-dia.
Marcela vivenciou crianças e suas feições tornarem imagens em espelhos com a mais pura magia, como pedras em brinquedos das mãos criativas de quem não se apega aos muitos detalhes da Ilha. Percebeu a intensidade do passado instalado no presente sem a pressa de chegar a algum lugar, como se andando para frente, não deixasse de olhar para trás, parecendo ser esse o pacto de Socotra com seus passos ancestrais. Ao atravessar as paredes estreitas deste portal, a fotógrafa reconheceu a potência de poder tratar a fotografia na sua forma mais humana, e assim emergir sobre essa e outras dimensões intensas do pensar.
Assim, em determinadas situações sentiu o pesar de questões, como em outras uma certa leveza. Ao considerar assuntos velados dos pés à cabeça, como o rígido controle do homem sobre a mulher, a fotógrafa presenciou o isolamento e a falta de acesso dessas pessoas no interior da ilha, enquanto “lá fora” a natureza “denuncia” a rispidez do clima através da resiliência das árvores nativas, as Bottle Trees, a nos ensinar o sentido da preservação diante das severas condições dos dias. Os dois lados, em algum momento, se fizeram possíveis por estarem visíveis e suspensos em sua própria referência de tempo, assim nos abrindo as linhas por onde traceja o imagético temporal de Socotra.
Existir resistindo à fugacidade do tempo. Não que haja sempre o certo. Não que seja sempre bom. Nem que seja sempre belo. Mas que dentro desse tempo de Socotra se enxergue a necessidade de aludir o que muitas vezes não damos conta de constituir: o infinito como princípio deste instante. E daqui de onde observamos e na tentativa de nos sentirmos menos distantes, percebemos como é bom nos tornarmos parte dessa linha, aproveitando a oportunidade de pensar de diferentes formas sobre a nossa própria temporalidade.
São mais que imagens, são memórias de uma localidade extremamente fechada, que de alguma forma se abre à nossa pressa ocidental. Assim, trazendo contrastes — oriente x ocidente — de uma mesma história que é universal. Uma oferta para podermos caminhar tanto pelo caminho da investigação, quanto pelo simples ato de olhar, a fotografia também é um “campo de batalha”, sempre voltado a nós e às nossas crenças. Socotra não mede substância, ela cria formas. E sua essência é ancestral e não arcaica. Enquanto a nossa sorte é poder perceber suas cores e formas serem preenchidas por um lugar que resiste ao tempo de tantas localidades, inclusive da velocidade do nosso olhar. De toda a vivência, um mergulhar sobre as areias, que de grão em grão não há fim e nem começo que abale a força desse chão.
Se confrontada à alma, Socotra remete à calma e também à contradição. São muitos princípios da Ilha: surpreendente e também revestida como as garras quentes de um Dragão (analogia feita à Dragon Tree, outra espécie de árvore nativa). Assim, assistimos a Socotra acontecer como um verdadeiro Ser em seu pacto ao tempo, que a todo instante nos leva adiante, junto ao que vem de trás e ao que também segue adiante: seu destino, infinito e pertencer.